Ortopedia Funcional dos Maxilares

DTM x Problemas Otológicos

* Gisele S. Palierini Meira 

Ao observarmos anatomicamente a região da ATM, notamos a proximidade dela com o meato acústico externo , bem como a interrrelação de suas artérias, veias e nervos.

Assim, a ATM quando bem posicionada dentro da fossa mandibular tem ótima relação com o ouvido. Porém se ela receber qualquer força oclusal ou alteração fisiológica e sofrer um deslocamento, passará a prejudicar as estruturas anatômicas adjacentes provocando diversas consequências ao indivíduo.

DTM: DISFUNÇÃO TÊMPORO MANDIBULAR

Disfunção significa a ausência ou anormalidade de funções do sistema mastigatório, que são, principalmente mastigação, deglutição, respiração e fonação. Seus sinais e sintomas podem manifestar-se nos músculos da mastigação, na ATM, no ouvido, na boca, nos dentes e na cabeça.

Alguns fatores podem levar alguém a ter disfunção, entre eles: a oclusão, falta de dentes, restauração ou prótese mal adaptada, mastigação unilateral, hábitos bucais anormais, má postura, tensão emocional entre outros.

Portanto, para conseguir o diagnóstico, deve se montar um quebra-cabeça, conhecendo o paciente individualmente, avaliando as condições psicológicas do paciente, os níveis de resistência à tensão emocional, frequência e intensidade de bruxismo, dores e sensações em órgãos adjacentes à ATM (ouvido, olhos..) e respiração.

Em SILVA ( 2.000 ), encontramos que as DTM's podem ser classificadas como:

Alterações Internas: Artrites. anquilose, suluxação , luxação.

Alterações Musculares: Mialgia (podendo causar trismo), dor à palpação (trigger points : geralmente associados ao bruxismo e apertamento).

Disquinesia ou Discinesia: Descoordenação do movimento mandibular com ou sem tremor, podendo ocorrer, inclusive sem dor, quando associado a uma disfunção neurológica.

Fatores Etiológicos: Fator hereditário (síndromes congênitas), fatores etiológicos locais (trauma de ATM, traumatismo craniano, causas dentárias iatrogênicas, invasão do espaço de repouso fisiológico, desarmonia oclusal, bruxismo, entre outros)

Fatores Gerais: Fisiológico (recente enfermidade sistêmica) e Psicológico (stress).

Sinais e Sintomas da DTM: 
Dor intra-articular, espasmo muscular, dor intra articular combinada com espasmos musculares, dor reflexa, dor na abertura e fechamento da mandíbula, dor irradiada na área de temporal, masseterina ou infraorbital; crepitação; dor ou zumbido no ouvido; dor irradiada no pescoço; dor de cabeça crônica; sensação d tamponamemto do ouvido; xeroostomia entre outros.

POSSÍVEIS RELAÇÕES ENTRE ATM E OUVIDO
SIICKER & DU BRUL (1991) relacioona otalgia como sintoma mais frequente nas DTM's.

BRITO et al ( 2.000 ) pesquisaram 40 pacientes de ambos os sexos e observaram que a frequência dos sintomas otorrinolaringológicos mais relatados pelos pacientes foram: Otalgia direita (72,5%); Otalgia esquerda (77,5%); Otalgia bilateral (52,5%); Hipoacusia (15%); Plenitude auricular (17,5%) ; Zumbido (17,5%) e Autufonia (15%). A idade média foi de 41 anos, o sexo feminino foi o de maior frequência de problemas otológicos relacionados à DTM e a DTM mais encontrada foi no ponto de inserção do ligamento têmporo-mandibular direito (ITMD). O exame audiométrico normal esteve em 62,5% e o alterado em 37,5% .

OURA (19--) pesquisou 712 funcionários da Indústria Metalúrgica do ABC e obteve os seguintes resultados em sua pesquisa: em toda população pesquisada 16,43% tinham queixa de sintomas otológicos. Dentre eles: 86,32% tinham zumbido; 32,48% tontura; 20,51% dor e 16,24% sensação de ouvido tampado. Os pacientes que apresentavam relação com DTM foram apenas 10,44% e destes, os sintomas mais frequentes eram : zumbido (9,9%); ouvido tampado (5,26%) e otalgia (33,33%) . A faixa etária entre 40 a 49 anos ocorre em 63,16% da população.

FELÍCIO et al (1.999) relacionaram apenas o Zumbido com a DTM. Formaram dois grupos : GRUPO DTM e GRUPO HC (pacientes que apresentam afecçõess otoneurológicas). No GRUPO DTM o zumbido era esporádico e as queixas eram otalgia e plenitude auricular não apresentando alterações nos testes audiológicos. A idade média era de 30,8 anos. No GRUPO HC o zumbido era intenso e contínuo, as queixas eram de diminuição de audição e dificuldade em compreender palavras. O exame audiológico se apresentava alterado e a idade média era de 42,8 anos. Foi concluído que a etiologia do zumbido no GRUPO DTM não é a mesma do zumbido do GRUPO HC.

D'ANTÔNIO et al ( 2.000 ) realizou um estudo clínico pesquisando a DTM como causa de otalgia em 523 pacientes com otalgia encaminhados ao Departamento de Otorrinilaringologia do H. C. da Faculdade de Medicina da USP. Resultados: 90 dos pacientes apresentavam DTM isolada, sem patologia otológica. Dos sintomas otológicos estavam : cefaléia (54,4%); zumbido ( 51,1% ); crepitação ( 37,8% ) e alteração de equilíbrio ( 31,1%). Má oclusão foi encontrada em 63,3% da população pesquisada e dor à palpação em 55,6%.

SÁ LIMA ( 1.986/87 ) estudou em 152 alunos da UNESP de Saõ José dos Campos a relação DTM e problemas otológicos e obteve os seguintes dados: 24,34% apresentavam DTM; 9,17% apresentavam sintomas otológicos.

Estes e outros autores pesquisados concordam ser o sexo feminino o de prevalência de sintomas otológicos relacionados a DTM, talvez porque as mulheres procuram mais o tratamento ou por disfunções mais frequentes.

A dor referida em região auricular é muito comum e a anatomia nesta região é muito rica em inervação sensitiva de ouvido e ATM. Devemos então analisar minuciosamente a anatomia para que juntamente com a sintomatologia consigamos diiagnosticar corretamente as patologias dos nossos pacientes para um tratamento de sucesso.

É de grande importância salientar a importância do trabalho multidisciplinar (médicos otorrinolaringologistas, dentistas, fonoaudiólogos, fisioterapêutas e psicólogos) nos pacientes onde há complexidade de patologia.

Lembramos também que a prevenção é sempre a melhor solução, e que quanto mais cedo diagnosticarmos as anormalidades , mais cedo ainda as extinguimos.

Este trabalho foi uma revisão de literatura para monografia de conclusão do curso para obter o título de Especialista em Pós Graduação de Ortopedia Funcional dos Maxilares na Odontologia Holística realizado no IBEHE (Instituto Brasileiro de Estudos Homeopáticos) na cidade de São Paulo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

D'ANTÔNIO et al . Distúrbio têmporo-mandibular como causa de Otalgia: um estudo clínico. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, [S.I.], v. 66, n. 1, p. 46-49, jan/fev. 2000.

FELÍCIO, Cláudia M. et al. Alterações auditivas relacionadas ao zumbido nos distúrbios otológicos e da articulação têmporo-mandibular.Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, [S.I.], v. 65, n. 2, p. 141-145, mar/abr. 1999.

OURA, Layde Nobuco. Sintomas otológicos relacionados a desordens da ATM. [S.I. s. n.}, [19--}.

SÁ LIMA, José Roberto. Disfunções da articulação temporomandibular:: estudo da prevalência dos sinais e sintomas em alunos da faculdade de Odontologia do campus de São José dos Campos- UNESP . Rev Odonto. UNESP,São Paulo, v. 15/16, p. 163-169, 1986/1987.

SICKER & DU BRULL, E. L. Distúrbios funcionaisda articulação craniomandibular. 8 .ed. [S.I.:s.n.], 1991. Cap.17, 355-366.

SILVA, A. et al. Disfunção da ATM. [S.I.], 2000. (Mimeo )

*Especialista Ortopedia Facial

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