Odontopediatria

Manejo da Criança 
no consultório odontológico

Dezan, C. C.*
Punhagui, M. F.**

Parte II -
ATITUDES DO PROFISSIONAL

1. INTRODUÇÃO

Todos os odontólogos que se disponham a assumir a responsabilidade de tratar crianças, devem ter em mente que a sua tarefa não será fácil. Isto porque, o exercício da Odontopediatria não pode e nem deve limitar-se, tão somente, à prevenção e solução dos problemas buco-dentários. Pressupõe também o desempenho de um importante papel nos setores psicológicos e educacional, possibilitando a ampliação dos benefícios do atendimento, pois além de facilitar a execução de uma Odontologia de alto padrão, permite evitar o estabelecimento de possíveis traumas psicológicos. 

A visita a um consultório pode causar "stress" emocional em crianças e adultos, sendo mais acentuado na primeira vez pelo medo natural do desconhecido ou situações desagradáveis anteriores, sofridas em outras áreas médicas. Além disso, em Odontopediatria o relacionamento com o paciente é bastante íntimo, uma vez que, na criança, a boca é uma zona de grande importância emocional, e bastante sensível.

Pelos motivos acima expostos e cientes de que o odontopediatra trata com algo mais do que meros dentes e sua reparação; realiza um intercâmbio ativo com um ser humano imaturo e em desenvolvimento, entendemos que para realizar odontopediatria, o profissional deve possuir as seguintes qualidades:

  • Ter personalidade firme e respeitar a criança;

  • Ter autocontrole, ser calmo, paciente, sincero, bem humorado, bom observador e amigo das crianças;

  • Possuir conhecimentos técnicos especializados e habilidade manual;

  • Gostar de crianças e possuir conhecimentos básicos de psicologia infantil aplicada à odontopediatria; 

Além disto, em qualquer relação paciente-profissional na área da saúde, deveria haver uma neutralidade benevolente, ou seja, o profissional deveria se interessar pelo bem estar do paciente sem se envolver de forma demasiadamente emocional em seus conflitos. Assim haveria uma avaliação mais objetiva do paciente por parte do profissional. Neste caso a criança e seu problema bucal são compreendidos de uma maneira dinâmica, como um todo, evitando-se atitudes extremas como a de super identificação com a criança e hostilidade à mãe ou a família em geral, culpando-os pelo estado da saúde bucal do paciente. Por outro lado, uma atitude dominadora, mas sem hostilidade, porque o odontopediatra está descontaminado de emoções, predominando o seu "saber", a mãe e a família são desprovidos de responsabilidades a serem instauradas, pois a criança e seus dentes são "manipulados" como se fossem objetos.


2. NORMAS GERAIS PARA O MANEJO ADEQUADO

Algumas características do profissional são preponderantes no sucesso do tratamento odontológico de crianças, dentre estas destaca-se sua personalidade, que deve ser calma, confiante e honesta. Além disto, o cirurgião dentista também precisa dispor de algumas habilidades, como:

2.1 Usar a linguagem adequada
A linguagem deve ser simples, compatível com o desenvolvimento da criança e adequando os procedimentos e instrumentos. Associada ao falar-mostrar-fazer é imbatível para crianças menores de 3 anos. No entanto, algumas crianças necessitam de um tempo maior de adaptação, para a seguir podermos fazer uma aplicação prática daquilo que demonstramos.

O falar-mostrar-fazer é a espinha dorsal para a fase educacional, para o desenvolvimento de um paciente relaxado e receptivo. Porém para se usar a linguagem adequada tem-se que conhecer o desenvolvimento psicológico da criança (FIGURA 1):

FIGURA 1 - Quadro sinóptico comparativo da faixa etária, características do tratamento e condutas profissionais a serem adotadas.

2.2 Ser direto
É preferível dar ordens diretas, no sentido positivo, ao invés de oportunidade de escolha.
Ex.: "Quero que abras a boca" ao invés de "você quer abrir a boca"

2.3 Reconhecer o tipo de paciente
Possibilita ao cirurgião dentista usar a forma de aproximação adequada para cada criança. Segundo WRIGHT, 1983 existem 3 tipos básicos de crianças:

  • Cooperativa;

  • Falta de capacidade cooperativa (crianças de pequena idade, incapacitadas física ou mentalmente);

  • Comportamento potencialmente não cooperativo.

Cooperativo
A maioria das crianças são cooperativas, conversam com o dentista, compreendem os procedimentos e seguem instruções polidamente. Este tipo de comportamento também é classificado por PINKHAM, 1994, como um bom paciente.

Falta Habilidade Cooperativa:
Incluem-se neste grupo as crianças muito jovens e aquelas com problemas no crescimento e desenvolvimento físico e/ou mental, uma vez que estes frequentemente limitam sua capacidade comunicação. O tratamento destes pacientes pode ser feito utilizando-se de drogas para sedar ou anestesia geral.

Potencialmente Não Cooperativo
Existem vários tipos de comportamentos potencialmente não cooperativos entre eles destacam-se:

  • Comportamento envergonhado:
    A ansiedade pode fazer com que a criança não preste atenção ao dentista, portanto as instruções devem ser dadas vagarosa e calmamente e repetidas quando necessário. Assim que a criança adquirir confiança no dentista será ótimo paciente.

  • Comportamento de cooperação tensa:
    Neste caso, a criança quer cooperar, porém está assustada. Seus olhos seguem qualquer movimento do dentista ou auxiliar e as suas mãos se travam no braço da cadeira. Seu comportamento pode melhorar ou piorar dependendo da preocupação e sensibilidade do dentista sobre seus sentimentos.

  • Comportamento tipo choramingando:
    Criança permite o tratamento, contudo, ficará choramingando durante todo o tratamento. Alguns autores consideram este choro como compensatório, para dar saída à ansiedade. Com a evolução do tratamento geralmente supera-se este tipo de comportamento, pois cresce auto-confiança e confiança no dentista.

  • Comportamento indiferente:
    Aparentemente é uma criança cooperativa, porém não fala facilmente e parecerá taciturna, senão triste. Acontece com muita frequencia em crianças físicamente abusadas.

  • Comportamento histérico ou incontrolado: (medrosa)
    Forte choradeira, chutes e acesso de raiva. A causa é medo escessivo resultante de sentimentos ou atitudes odontológicas sugeridas às crianças pelos pais ou irmãos.

  • Comportamento rebelde ou teimoso:
    Muito comum na criança mimada, que controla seu comportamento desafiando a autoridade do dentista com expressões como: "Eu não quero consertar meus dentes!" ou "Você não pode me obrigar a abrir a boca!".

    Ainda podemos deparar com a criança que apresenta resistência passiva ao tratamento, expressa também um comportamento teimoso. Ela sentará quieta com os dentes cerrados, evitara olhar para o dentista e ignorará qualquer tentativa de comunicação. Seu comportamento é uma forma de protesto contra o controle que os adultos exercem sobre sua pessoa.

2.4 Reconhecer o tipo de choro
Da mesma forma que reconhecer o tipo de paciente, possibilita ao cirurgião dentista empregar a abordagem ideal para cada caso. O choro pode ser resultado de ansiedade simulação ou fadiga. Existem quatro tipos característicos de choro:

  • Assustado
    Expressa medo real. Abundância de lágrimas. Conversar firme atraindo a atenção da criança.

  • Obstinado
    Forma de capricho. Criança berra mas não tem lágrimas, pois está acostumada a ter seus caprichos satisfeitos. Fazer repressão moderada e firme para obter consentimento para executar e manter diálogo.

  • Compensatório
    É um barulho para encobrir o som da boca. Esse comportamento não interfere com o bom tratamento a ser realizado. Conversar gentilmente com a criança reduzirá o problema.

  • De dor 
    Usualmente choroso, sem gritos e associado à dor. Deve ser controlado com complemento anestésico

 

2.5 Reconhecer os sinais da ansiedade
Tem o mesmo objetivo do reconhecimento do tipo de paciente e de choro. No quadro abaixo encontram-se descritos o tipo e etiologia da ansiedade:

FIGURA 2 - Tipo e etiologia da angústia/ ansiedade

A ansiedade aparece em forma de comportamentos, sintomas orgânicos, ou ambos. Tais fenômenos podem ser denominados conversão, que podem ser agudas ou crônicas. Alguns tipos freqüentes de conversões são: olhos arregalados e fixos, narinas dilatadas, boca semi-aberta, testa enrugada, movimento de fuga, dilatação das pupilas, tremores finos no corpo inteiro, secura de boca, palidez, sudorese, taquicardia, taquipnéia, anorexia, espasmos intestinais, diarréia.

O dentista pode diminuir a ansiedade dos pais fornecendo orientação e informações antes da primeira consulta, sob forma de panfletos, como visto anteriormente.

2.6 Controlar a situação
A criança deve perceber que o profissional é quem está no controle da situação.

2.7 Fazer o controle da voz
Freqüentemente a criança responde favoravelmente quando se injeta mais autoridade na voz - usar um tom mais firme, autoritário e ligeiramente elevado. A voz e a expressão facial devem espelhar atitude de confiança.

Usado para interromper comportamentos impróprios, logo que comecem ou após terem explodido. Ótimo para crianças pré-escolares.

WRIGHT, 1975 (apud Mc TIGUE, 1983) enfatiza esta técnica dizendo: "o que você diz não é tão importante quanto como você o diz".
Tão logo a criança obedeça à ordem dada devemos agradecer e cumprimentá-la pelo seu excelente comportamento.

2.8 Comunicar-se adequadamente
A habilidade de comunicar-se adequadamente demanda o domínio de todas as habilidades supra-citadas, por isso é o melhor método para reduzir a ansiedade odontológica. Nela utilizam-se palavras, gestos, olhares e expressão corporal. WEINSTEIN (apud NATHAN, 1988) afirma que: "O padrão de comunicação que melhor caracteriza a relação dentista-criança é o de orientação-cooperação e o de modelos de participação mútua." Além disto, em seus estudos sobre comunicação observou que:

  • Dar orientação ou instrução específica para a criança e reforço específico, isto é, para cada ato operatório dar a orientação e o elogio na hora, resultou numa redução do comportamento medroso da criança.
  • Afagos e atitudes carinhosas para com a criança também diminuíram o comportamento medroso.
  • Perguntar o que a criança está sentindo é uma técnica útil, visto que ignorar ou negar os sentimentos da criança não reduziu comportamentos medrosos.
  • Tranqüilizar a criança com afirmações do tipo: "está tudo bem!" ou "fique calma!", surpreendentemente foram ineficazes na diminuição do medo.
  • Tentativas de abafar a criança tendem a ser seguidas por um aumento substancial do medo.
  • Explicações, embora freqüentemente usadas na faixa etária de três a cinco anos, parecem não reduzir o medo significativamente.
  • Parar o tratamento quando a criança pede, no intuito de manipulá-la, resultou em comportamentos mais medrosos.

2.9 Ser capaz de realizar uma contenção física
A contenção física, deve ser utilizada quando necessário, porém sem abuso, contendo somente os movimentos indesejáveis durante o tratamento. Pode ser feita com as mãos, cintos, fitas adesivas ou indumentárias manufaturadas (pacote pediátrico). É reservada às crianças impossíveis de se manejar e também àquelas que necessitam de métodos para manter a boca aberta (abre-bocas). Indica-se também para crianças menores de 30 meses que necessitam de tratamento emergencial, além de crianças incapacitadas. 

A criança deve ser elogiada pelo bom comportamento, mesmo utilizando a contenção, pois permitiu o tratamento.


3. ATITUDES A SEREM EVITADAS

3.1 Ameaças
Se as fizermos teremos que cumprir ou a criança não acreditará mais no dentista.

3.2 Táticas enganatórias
Empregadas pelas crianças que querem prolongar o início de um procedimento. Criança faz muitas perguntas, pede para ir ao banheiro ou até mesmo vomitam.

3.3 Chantagem
Não utilizar.

3.4 Ridicularizar
Não conduz a um bom comportamento ou a uma modificação positiva no comportamento da criança. Geralmente apoio positivo produz melhores resultados.


4. BREVES CONSIDERAÇÕES QUANTO AO AMBIENTE DO CONSULTÓRIO

O ambiente do consultório possui elementos ansiogênicos ou indutores de ansiedade (instrumental, cadeira, equipamentos, sons e até odores). Ampliar o campo perceptivo da criança em relação ao tratamento odontológico ajuda a diminuir a sua ansiedade. Começar pelo ambiente da sala de espera que deve ser orientado aos interesses das crianças, a presença de revistas, jogos educativos ou brinquedos mostram à criança que ela está em um ambiente amigo, que é bem vinda, onde pode se ocupar e distrair. Familiarizar a criança com o consultório antes do tratamento dentário propriamente dito, usando a técnica do falar-mostrar-fazer, contribui sobremaneira na redução da ansiedade infantil.


5. CONCLUSÃO

Crianças e dentistas são pessoas comuns, com desejos, expectativas, necessidades e afetos. Apesar de se igualarem com pessoas comuns, a relação profissional-paciente não é igualitária. Eticamente espera-se do profissional competência e maestria para a condução do tratamento, no plano técnico, e o bom relacionamento, no plano psicológico. É necessário então que o profissional tenha auto conhecimento e aprofunde seu conhecimento sobre a criança e suas emoções para o pleno exercício da Odontopediatria.


6. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

FINN, S.B. Odontologia pediátrica. 4ª ed. México: Interamericana, 1976. 613p.

KLATCHOIAN, D.A. Psicologia Odontopediátrica. São Paulo: Sarvier, 1993. 89p.

Mc TIGUE, J.D. Controle do comportamento infantil. Odontopediatria:Clínicas Odontológicas da América do Norte. São Paulo-SP. Roca, 1983.p.91-106.

McDONALD, R.E.; AVERY, D.R. Odontopediatria. 5ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1991. 598p.

PINKHAM, B.S. Pediatric dentistry. 2ª ed. Philadelphia: Saunders, 1994. 647p.

REID, S. Compreendendo seu filho de 2 anos. Rio de Janeiro: Imago Editora,1992. 78p.

STEWART,R.E. Pediatric Dentistry - Scientific Foundations and clinical Practice. St. Louis, Missouri:The C.V.Mosby Company,1982 p.150-6.

TOLEDO, O.A. Odontopediatria: fundamentos para a prática clínica.São Paulo: Panamericana, 1986. 243p.

* Professora da disciplina de Odontopediatria da
Universidade Estadual de Londrina e 
Universidade Norte do Paraná
** Professora da disciplina de Odontopediatria da 
Universidade Estadual de Londrina

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