Odontologia Estética

Clareamento Dental Caseiro
Relato de um caso clínico

* Márcio Shimomura
** Francine Sesti Cruz
*** Isabela Costa Grattão

INTRODUÇÃO

Atualmente a estética tem ocupado um lugar de destaque na Odontologia. Um sorriso harmonioso, com dentes brancos, bem contornados e alinhados estabelecem o padrão de beleza. O clareamento dental é um procedimento clínico eficiente e que vem ganhando popularidade por se tratar de um método conservador e apresentar um custo relativamente baixo. Existem muitas técnicas efetivas para clarear um dente e no intuito de indicar o melhor procedimento a ser realizado ou mesmo a associação de uma ou mais técnicas, é importante que o cirurgião dentista saiba diagnosticar corretamente as causas das alterações de cor dos dentes, conseguindo assim o melhor prognóstico possível. Neste trabalho, será relatado, passo a passo, um caso clínico de clareamento dental caseiro em um paciente, 20 anos, sexo masculino, no qual foi constatada, durante a anamnese e exame clínico, que as alterações de cor dos elementos dentais eram decorrentes da genética do próprio paciente. Foi utilizado como agente clareador o gel peróxido de carbamida à 10%. Será abordado, também, o mecanismo de ação do gel utilizado e as mais freqüentes etiologias das discromias.

HISTÓRICO

Peróxido de carbamida, um dos principais agentes clareadores atuais, foi inicialmente usado como antiinflamató’rio nas grandes guerras para tratar doença periodontal (boca de trincheira GUNA) e mais tarde em Endodontia, na limpeza dos canais radiculares; na Ortodontia como agente anti-placa; e mostrou outras utilidades em diferentes especialidades. Em 1960, foi proposto nos EUA, a técnica de clareamento caseiro com este medicamento, tendo ficado adormecido até 1989, quando Haywood e Heymann, a descreveram com detalhes. A partir daí, as grandes indústrias investiram em pesquisas e marketing, tornado o clareamento dental uma técnica segura e de grandes resultados a quem ela se submete.

MECANISMO DE AÇÃO DOS CLAREADORES CASEIROS

O clareamento dental só é possível graças à permeabilidade do dente aos agentes clareadores. As soluções de peróxidos fluem livremente através do esmalte e dentina, isso se deve ao baixo peso molecular da molécula de peróxido.

O peróxido de carbamida é muito instável, em contato com a saliva ou estrutura dental ele se dissocia em peróxido de hidrogênio (3 a 5%) e peróxido de uréia (7 a 10%). O peróxido de hidrogênio é o agente ativo, enquanto que o peróxido de uréia vai elevar o pH da placa. O peróxido de hidrogênio é metabolizado pelas peroxidases, catalases, hidroxiperoxidases e se dissocia em O2 e H2O, já o peróxido de uréia se decompõe em amônia e CO2, elevando o pH da placa . Devido aos agentes clareadores terem um baixo peso molecular, como já foi dito, as estruturas dentais (esmalte e dentina) são permeáveis a eles, portanto o agente clareador difunde-se livremente por essas estruturas. Ocorre então a oxidação dos pigmentos presentes nessas estruturas, ou seja, compostos de anéis de carbono pigmentados são abertos e são transformados em cadeias mais claras . O pigmento, que é uma macromolécula, vai sendo transformado em cadeias moleculares cada vez menores, que acabam no final do processo sendo eliminados ou parcialmente eliminados da estrutura dental por difusão. O efeito clareador ocorre pela degradação de uma molécula orgânica complexa de alto peso molecular, o resultado dessa degradação produz moléculas menos complexas, de peso molecular reduzido, gerando a diminuição ou eliminação do pigmento.

ETIOLOGIAS DAS ALTERAÇÕES DE COR DOS DENTES

As alterações de cor dos elementos dentais podem ser classificadas em manchas extrínsecas e manchas intrínsecas, sendo as primeiras causadas pela precipitação de corantes e pigmentos sobre a placa bacteriana e/ou sobre a película adquirida do esmalte.

Dentre as manchas extrínsecas podem ser citadas:

  • Presença de corantes nos alimentos;
  • Bebidas à base de cola;
  • Nicotina;
  • Consumo de chá preto, vinho, café.

Esse tipo de manchamento, também, pode ser removido com uma profilaxia com pasta abrasiva e raspagem e alisamento corono radicular.
Já as manhas intrínsecas, só podem ser removidas com o clareamento ou procedimentos mais radicais (desgaste e/ou restauração do dente). Podem acometer dentes vitais e dentes não vitais.

Dentes Vitais:

  • Escurecimento natural (genética);
  • Escurecimento fisiológico (desgaste fisiológico do esmalte);
  • Ingestão excessiva de algum medicamento (tetraciclinas e fluoretos);
  • Doenças ou distúrbios sistêmicos (deficiências nutricionais, doenças exantomáticas, febre reumática, hipocalcemia, eritroblastose fetal, porferia congênita).

Dentes Não Vitais:

  • Necrose pulpar;
  • Contaminação da câmara pulpar, durante o tratamento endodôntico;
  • Hemorragia pulpar pós trauma;
  • Erros durante a endodontia (abertura coronal deficiente, irrigação e limpeza insuficiente);
    Materiais obturadores e restauradores com prata e/ou óxido de zinco e eugenol na sua composição, quando em contato com a câmara pulpar por longo período).

RELATO DE UM CASO CLÍNICO

O paciente, sexo masculino, 20 anos, apresentava como queixa principal a estética comprometida devido à cor original dos seus dentes. Durante a anamnese, foi determinada a etiologia da alteração de cor, e neste caso, trata-se de um escurecimento natural, (geneticamente os dentes são amarelos). Previamente ao procedimento clareador é feita uma profilaxia com pedra pomes e feito o registro da cor (incisivos centrais e laterais superior e inferior: A3 / caninos superior e inferior: A3,5).

Faz-se a moldagem, com alginato, da arcada superior e inferior, para se obter os modelos de gesso, sobre os quais serão confeccionadas as moldeiras. 

Sobre a face vestibular dos modelos de gesso são feitos os alívios, estes são confeccionados apenas nos dentes que se deseja clarear. Os alívios podem ser feitos com resinas vencidas, resina de bloqueio, resina flow, ou seja, materiais resistentes ao calor. Não se usam tintas, esmaltes nem ceras. Ele deve apresentar aproximadamente 1 mm de espessura e tem por finalidade servir como um reservatório para o clareador no interior da placa, aumentando o volume que fica em contado com os dentes.

Depois de confeccionados os alívios, faz-se as moldeiras, que são usadas para manter o agente clareador em contato com os dentes, As moldeiras são confeccionadas por um material plástico flexível, transparente, com aproximadamente 2mm de espessura, pode ser usada silicone, acetato, PVC, neste caso, as moldeiras são de acetato. É utilizada uma máquina termo-vácuo (ou seja, um aparelho gerador de calor e vácuo), que vai assentar a folha de acetato no modelo. Com uma tesoura ou bisturi, as moldeiras são recortadas seguindo a linha dento gengival, ou como foi feito neste caso, cobrindo parte do tecido gengival, além da coroa clínica dos dentes, deste modo, aumenta-se a estabilidadeda placa, e garante um vedamento marginal que impeça ou minimize a infiltração de saliva para o interior da placa e/ou vazamento de clareador para o meio bucal (fig.1).


fig.1

Numa segunda sessão, prova-se as moldeiras no paciente, e se necessário, faz-se os ajustes. O paciente é orientado quanto a forma de aplicação, tempo, período e freqüência de uso. Excesso de material quando existente deve ser retirado com gaze, ou cotonete, ou a própria escova de dente, ou com a ponta do dedo. Para controle clínico da técnica empregada é recomendado clarear uma arcada de cada vez.

O paciente é avaliado semanalmente para o monitoramento do clareamento, verifica-se se há alguma queixa por parte do paciente em relação ao produto empregado (peróxido de carbamida 10%), como irritação gástrica, gengival, hipersensibilidade dos dentes, etc.

O período de uso da substância clareadora depende da etiologia da alteração de cor, do quanto o paciente deseja clarear os dentes e da concentração do produto. Nós obtivemos resultados satisfatórios após 10 dias de uso, tanto da arcada superior, quanto inferior. Os incisivos centrais e laterais superiores chegaram a cor A1, os caninos da mesma arcada chegaram a A2, já os inferiores clarearam um pouco menos e chegaram a cor A2, tanto os incisivos quanto os caninos. Neste caso o paciente não nos relatou nenhuma sensinbilidade e ficou muito satisfeito com o resultado.

Fotografias foram realizadas antes de iniciarmos o procedimento durante e após termos concluído o trabalho (fig. 2, 3, 4).


fig.2


fig.3


fig.4

 

 

* Docente da Universidade Estadual de Londrina
Professor auxiliar do curso de Atualização em Odontologia Estética e Cosmética
** Acadêmica do 5º ano de odontologia da Universidade Estadual de Londrina
*** Acadêmica do 5º da Universidade Estadual de Londrina

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