Odontopediatria

Manejo da criança no consultório odontológico
"Um dentista deve ser um observador e analisador proficiente do comportamento uma criança, para que essa possa ser controlada com sucesso."

Dezan, C. C.*
Punhagui, M. F.**

PARTE I

1. INTRODUÇÃO:

Todos os odontólogos que se disponham a assumir a responsabilidade de tratar crianças, deve ter em mente que a sua tarefa não será fácil. Isto porque, o exercício da Odontopediatria não pode e nem deve limitar-se, tão somente à prevenção e solução dos problemas buco dentários. Pressupõe também o desempenho de um importante papel nos setores psicológicos e educacional, possibilitando a ampliação dos benefícios do atendimento, pois além de facilitar a execução de uma Odontologia de alto padrão, permite evitar o estabelecimento de possíveis traumas psicológicos. 

Além disto, no paradigma da promoção de saúde, já não faz mais sentido que o primeiro contato odontológico da criança seja aos 3(três) anos de idade, como antigamente. Porém, sabe-se que abaixo desta idade, não há habilidade infantil quanto à linguagem e comunicação. Por outro lado, o relacionamento com o paciente é bastante íntimo, uma vez que na criança, principalmente aquelas com idade até 24 meses (fase oral), a boca é uma zona de grande importância emocional, e de extrema sensibilidade. Assim sendo, o atendimento odontológico precoce iniciado no primeiro ano de vida torna-se em hábito e a compreensão do nosso "fazer" transforma-se em uma experiência agradável.

A idéia básica para o tratamento dentário em crianças foi proposta por Olsen, em 1964: "O objetivo de cuidar de crianças jovens deve ser executar o máximo de trabalho em menos tempo e com pouco grau de desconforto."

Neste capítulo procurou-se enfocar a atenção odontológica integral da criança, conduzindo-a ao comportamento positivo durante a sua vida.

2. DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

O desenvolvimento psicológico da criança é baseado em três fontes de energia. 

- A primeira fonte para o desenvolvimento é a maturação do sistema nervoso central, que é ao mesmo tempo, a força mais poderosa e a mais limitante.

- A segunda fonte de energia é o "Feedback" interno. Estão aí incluídas as características genéticas individuais de cada criança.

- A terceira fonte de energia que propulsiona o desenvolvimento é o "Feedback Externo", que é dado pelos pais, pelo meio ambiente e por todos os fatores externos à criança: escola, sociedade, experiências prévias na área da saúde.


Figura 1 - Três fontes de energia para o desenvolvimento 

Nas diferentes fases da infância a criaça apresenta algumas caracteríticas comportamentais que poderiam ser assim sintetizadas:

2.1 Do nascimento aos 2 anos
Os padrões de comportamento giram em torno do desejo básico inicial da manutenção de uma rotina estabelecida. A criança não é capaz de produzir uma resposta racional frente ao tratamento odontológico. A transformação que ocorre do nascimento aos 2 anos de idade representa o mais extraordinário período de mudança e desenvolvimento na vida de um ser humano em todos os aspectos: físico, intelectual e emocional.

2.2 Aos 2 anos
Criança tem medo de cair, de movimentos repentinos e inesperados, de barulhos altos, e de pessoas estranhas. Desta forma, é aconselhável a presença dos pais para o tratamento. Aos 2 anos impressiona a transformação do bebê em um ser "independente". A criança pode falar com uma fluência cada vez maior, manter uma conversa, ter opiniões, fazer intermináveis perguntas, discutir e retrucar e ainda tentar conquistar sua independência. As crianças de 2 anos aprendem e absorvem as coisas o tempo todo e escutam tudo o que acontece ao seu redor.

A mãe ainda é o centro do mundo - ela é a base segura a partir da qual o resto do mundo pode ser explorado. Nesta idade podemos perceber "medos" incompreensíveis, com por exemplo: medo do escuro, medo de cachorros, medo de determinadas pessoas, medo de determinada peça de roupa, etc. Esses temores estão relacionados com a vida imaginativa da criança.

2.3 Aos 3 anos
Início do período pré-escolar. Esta fase é caracterizada pela capacidade da criança de manter uma boa conversação com o dentista. Sua atenção e comportamento melhoram e reage positivamento a comentários sobre seu comportamento e suas roupas. Segundo Mctigue (1978), Stewart (1982) e Goran Koch (1992) a criança é capaz de cooperar no tratamento, sem muito medo da separação dos pais.

2.4 Aos 4 anos
Período difícil para a criança. Ouve com atenção as experiências, é susceptível à ordens verbais; porém testa frequentemente os limites que lhe são impostos. Separa-se bem dos pais, porém acentua-se o medo de dores físicas.

2.5 Aos 5 anos
É fácil a separação dos pais e seus temores são reduzidos. Orgulha-se de suas realizaões e de suas posses, é susceptível à elogios. É gentil e cooperativa.

2.6 Aos 6 anos
Criança difícil, a entrada na escola é uma virada crítica. Seu humor pode variar a cada instante, indo de amável à caprichosa. Guarda medo irracional de objetos, pessoas e males físicos. É capaz de argumentar de forma lógica e às vêzes é difícil persuadi-la.

2.7 Aos 7 e 8 anos
Segundo Goran Koch (1992) são crianças sensíveis e racionais. Conseguem viver em grupo e são categóricas e rígidas: as coisas são boas ou são ruins.

2.8 Dos 9 anos à puberdade
Criança receptiva e pronta para responsabilidade da sua higiene.

3. ATITUDES DOS PAIS

No estudo das relações sociais, deveremos valorizar em primeiro lugar, o relacionamento da criança no ambiente familiar. O meio exerce uma grande influência sobre a criança e, dentro dessa influência do meio, deveremos estudar, principalmente, as interinfluências da personalidade no círculo da família. Mira & Lopez definem a "constelação familiar" como "conjunto de relações afetivas que se estabelece entre a criança e seus familiares (e entre estes e aquela) na vida no lar". Dentro dessas relações, atitudes inadequadas dos pais poderão facultar o aparecimento de características típicas de comportamento problemático com reflexos marcantes na clínica odontológica. O comportamento inicial da criança no consultório é reflexo das atitudes dos pais no lar. Geralmente os pais são os maiores problemas que temos de enfrentar, portanto se desejarmos bons pacientes devemos, primeiramente, orientar a conduta paterna.

3.1 Excesso de proteção 
Pode manifestar-se como uma dominância ou uma indulgência extrema, que depende da disposição inata da criança e de como irão reagir aos primeiros comportamentos dos pais. Parece haver uma reação inversa às atitudes dos pais. Geralmente a criança não pode utilizar iniciativa própria nem tomar decisões por si mesma. O excesso de proteção pode ser acompanhado de indulgência ou dominação extremas.

3.2 Pais indulgentes
São aqueles pais que exageram na noção de liberdade da criança, nada exigindo dela. É comum em pais que tiveram pais autoritários, sentiram-se abandonados ou rejeitados, e quando ocorre uma mudança total da situação econômica para melhor exageram na noção de liberdade. Existem situações familiares que estimulam essa atitude; é o caso do filho único, do caçula de uma longa série, ou do filho de viúva.

O excesso de proteção com indulgência resulta em crianças com dificuldades de adaptarem-se ao meio social, que acreditam serem superiores às demais, egoístas, indisciplinadas e tirânicas, porém na realidade são inseguras e dependentes, a clássica "criança mimada". Como pacientes tentam usar de encanto e persuasão para retardar o tratamento, se não conseguem gritam, choram, podendo até mesmo agredir o profissional. O profissional deve impor disciplina e orientação aos pais.

3.3 Pais dominadores
Cercam completamente a liberdade da criança, evitando sua convivência com outras crianças, mantendo um contato excessivo com ela e falando, agindo, brigando e até pensando pelo filho. São atitudes muito comuns de pais que sofreram muito na infância, por rejeição ou abandono. A condição de filho caçula, único, de pais idosos, ansiosamente esperado ou presença de defeito físico estimulam essa atitude, além da morte prematura de um outro filho.

A criança resultante de pais superprotetores e dominadores é, geralmente, tímida, delicada, submissa, medrosa, humildes, se sentem inferiores, e quando contrariada ou com medo chora baixinho e entre soluços. São bons pacientes odontológicos, sendo que em alguns casos precisamos vencer a barreira da timidez inicial.

3.4 Repulsa ou rejeição
É a incapacidade de dar amor, atenção ou carinho à criança. Os pais afastam-se completamente do seu convívio, ou até mesmo agem com hostilidade, e até agridem.

Os filhos de pais indiferentes se sentem inferiores e preteridos, inseguros, ressentidos, são pouco colaboradores, se retraem em si mesmo sem amar nem interessar-se por nada. As crianças não desejadas ou rechaçadas que também sofrem agressões e brutalidades, se tornam agressivos, vingativos, combativos, desobedientes, pouco populares, nervosos e demasiadamente ativos. São pacientes difíceis, se portam mal para chamarem a atenção, tratá-los com carinho e ensiná-los que quando se portam bem o tratamento dentário é muito mais agradável.

3.5 Excesso de zelo
Geralmente é resultado de alguma tragédia familiar. Os pais exageram no amor e carinho, no cuidado do bem estar físico, na importância das doenças. A ansiedade excessiva vem sempre acompanhada de super proteção com dominação. As características da criança submetida ao excesso de zelo são as mesmas daquelas que vivem sob super proteção com dominação, podendo, muitas vezes, apresentar também reação de fobia. 

3.6 Autoridade excessiva
Os pais fazem exigências excessivas, às vezes descabidas, sobre ordem, limpeza, obediência, bom comportamento e responsabilidade pelos atos. Não toleram negativas, oposições e fracassos. O perfeccionismo aparece, às vezes, em casos de rejeição encoberta. A etiologia dessa atitude paterna está quase sempre ligada à identificação.

Gera uma criança frustrada, complexada e angustiada, que vive em estado de tensão, pois preocupa-se em estar ao nível exigido pelos pais. Dificilmente externa seus desejos, idéias e sentimentos por medo de críticas. No consultório se submete pacificamente com medo de ser criticada por mau comportamento. Conversa bem e responde ao que se pergunta, porém dificilmente expressa o que está realmente sentindo. 

4. ORIENTAÇÃO AOS PAIS E ACOMPANHANTES

Deve-se alertar aos pais ou acompanhantes sobre a origem dos distúrbios de comportamento, sobre o desenvolvimento da personalidade da criança e os efeitos da orientação educacional. Em 1958, Leyt publicou uma orientação aos pais e acompanhantes que vem sendo adotada por inúmeros profissionais praticantes de odontopediatria. 

São elas :

  • Não se inquiete se seu filho chora. O choro é uma forma normal de reação da criança ante situações desconhecidas ou temidas. Não lhe diga que não deve chorar; seu filho é uma criança e pode estar muito assustado. Respeite o seu temor. Trataremos de aliviá-lo e fazer com que naturalmente perca o temor.
     
  • Não se inquiete se a reação do seu filho for ainda mais violenta; sem dúvida ele terá algum motivo. Sempre haverá métodos para resolver o problema odontológico. 
  • Nunca o engane. Diga-lhe que vai levá-lo ao dentista. Faça-o compreender que vai visitar uma pessoa que o quer como amigo. Explique-lhe que o dentista como o médico, o professor, são pessoas que se preocupam com a sua saúde física e mental. Estudaram para isso e empregam os seus conhecimentos para o seu bem-estar. 
  • Se você lhe prometeu algum presente para melhorar a sua conduta, não inclua o dentista nessas promessas; seria prejudicial para o bom andamento dos serviços. 
  • Deixe a criança expressar a sua curiosidade sobre tudo que houver no consultório. O dentista terá prazer em explicar-lhe, e aclarar sua dúvida mas somente o dentista deverá prestar tais esclarecimentos. 
  • Controle seus temores. Evite em presença de seu filho relatar coisas desagradáveis e não permita que outros o façam. Existem palavras que assustam e é necessário evitá-las. 
  • A melhor situação no tratamento se alcança quando a criança está só no consultório, o que conseguimos paulatinamente. Favoreça-o com sua atitude e confie no dentista. 
  • Enquanto você acompanha seu filho no consultório procure não interferir na conversação entre ele e o dentista. A criança se confunde quando várias pessoas falam ou recebe indicações de vários lados, podendo não atender a nenhum. Evite que várias pessoas acompanhem o seu filho. 
  • Permita que seu filho se desenvolva só. Seguramente ele o conseguirá. 

Outras informações pertinentes ao funcionamento do seu consultório, por exemplo: como marcar e desmarcar consultas, os honorários do tratamento e a forma de pagamento,as revisões periódicas e um agradecimento cordial, também poderão ser listadas neste panfleto.

5. CONCLUSÃO 

No relacionamento humano a ciência psicológica não autoriza aconselhar como base científica, esta ou aquela atitude, este ou aquele comportamento, em face das diferentes situações. Isso porque, cada ser humano tem sua própria maneira de interpretar as diferentes situações que enfrenta de acordo com as inúmeras facetas de sua personalidade. Na prática odontopediatrica faz-se necessário evidenciar os conhecimentos sobre a influência dos fatores ambientais facilitando o manejo da criança na prática odontológica. Qualquer que seja o tipo de criança a ser atendida, o profissional deve observar não apenas a idade cronológica, mas principalmente o nível de desenvolvimento mental e emocional, a fim de reconhecer suas necessidades psicológicas básicas e os seus interesses, capacitando-se para interpretar corretamente as reações e ter noção dos fatores capazes de desencadea-las, bem como dos meios mais adequados para motivar a criança, conquistar sua confiança e transmitir-lhe segurança.

6. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 

PINKHAM, J.R., CASAMASSIMO, P.S., McTIGUE, D.J., FIELDS, H.W., NOWAK, A. Pediatric dentistry: infancy through adolescence. 2ª ed. Philadelphia: Saunders, 1994. 647p.

FINN, S.B. Odontologia pediátrica. 4ª ed. México: Interamericana, 1976. 613p.

KLATCHOIAN, D.A. Psicologia odontopediátrica. São Paulo: Sarvier, 1993. 89p.

McDONALD, R.E., AVERY, D.R. Odontopediatria. 5ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1991. 598p.

REID, S. Compreendendo seu filho de 2 anos. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1992. 78p.

McTIGUE,D.J. Odontopediatria: Clínicas Odontológicas da América do Norte. São Paulo: Roca, 1983.

STEWART, R.E. Pediatric dentistry: scientific foundations and clinical Practice. St. Louis: Mosby Company, 1982 p.150-6.

TOLEDO, O.A. Odontopediatria: fundamentos para a prática clínica. São Paulo: Panamericana, 1986. 243p.

* Professora da disciplina de Odontopediatria da Universidade Estadual de Londrina e Universidade Norte do Paraná
** Professora da disciplina de Odontopediatria da Universidade Estadual de Londrina

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